O ano era 1978. Como parte da celebração de meu casamento e da mudança da casa de meus pais, escrevi, já em viagem, uma “Carta ao meu pai” (com teor muitíssimo longe daquela publicada por Kafka, que li quando tinha 20 anos). Certamente eu dizia da minha profunda gratidão pelo que tinha sentido, vivido e aprendido nas casas da Rua Rio Grande do Sul, em Morrinhos, e na da Rua 1-A, em Goiânia. Por alguma razão essa carta não foi despachada e nunca entregue a meu pai. Passados quase cinquenta anos, eis que me bate fundo o sentimento de ter desperdiçado essa oportunidade singular não só de expressar, ainda que com certa timidez à época, meu afeto por ele, bem como de intensi car essa ligação indelével com meu pai. Hoje, com um atraso lamentável – mas quem sabe providencial –, mais que uma carta, escrevo e compartilho meu testemunho como filho, apostando que esse registro mais ainda o sensibilizaria e o deixaria orgulhoso. Por ver aqui reconhecido tudo o que fez, tudo o que foi e tudo que deixou como legado.